O Legado de um Herói As Crônicas de Davi Vol. 1


Davi estava no chão, lutando para se manter consciente. Tentava resistir, mas não conseguia levantar. Sua respiração estava pesada, seus ossos fraturados. Seu corpo não se movia. Seu destino parecia ser a morte. Mas sua fé... sua fé não se abalou em nenhum momento.


Algumas horas antes...

Davi, conhecido regionalmente como "Davi, o Justo, Herói de Daywoods," estava comemorando seu vigésimo aniversário na Taverna de Daywoods, no Reino da Luz, com seus amigos, todos guerreiros da guarda do Rei. Em meio a tantas bebidas e carnes de procedência duvidosa, um jovem mensageiro entrou no local com um comunicado urgente.


— Ouçam todos! Estou procurando por Davi, o Justo! Tenho uma missão para ele dada pelo próprio Rei Nicolas! — Anunciou o mensageiro.


— Uma missão? Mas o Rei Nicolas me deu este dia de folga para comemorar meu aniversário. — Respondeu Davi, surpreso.


— Ordens do Rei, apenas. — Disse o mensageiro.


Davi olhou para seus amigos, e Henry, seu melhor amigo, disse:


— Vá, amigo! Quando você voltar, terminamos a comemoração. Com certeza o Rei deve ter um motivo muito sério para te convocar no seu dia de folga.


— Eu sei... tudo bem. Mensageiro, diga ao Rei que estou a caminho! — Davi respondeu, decidido.


Davi foi para sua casa, onde vestiu sua roupa e armadura. Olhou-se no espelho e viu um rapaz alto, forte, de cabelos e olhos castanhos, com excelente porte físico. Um verdadeiro exemplo de guerreiro.


— Você está bonito, e vai se dar bem hoje! — Disse para si mesmo antes de partir para o castelo.


Chegando na sala real, ajoelhou-se e perguntou ao Rei:


— Estou aqui, Vossa Majestade. Qual é a situação?


À sua frente estava o Rei Nicolas, um bravo guerreiro de meia-idade, recentemente nomeado Rei do Reino da Luz após o falecimento de seu pai.


— Davi, primeiramente, peço-te sinceras desculpas por tirá-lo de seu dia de folga, mas para esta missão em específico, não confiaria em nenhum outro guerreiro além de você. — Disse o Rei.


— Está tudo bem, meu Rei! Não precisa se preocupar com isso. Estou aqui para cumprir com o que mandar. — Respondeu Davi.


— Muito bem... hoje mais cedo, estava vindo um comboio para nossa cidade, trazendo um objeto muito importante e de alto valor para nós. Porém, há pouco, ele foi atacado e roubado por alguém. Eu preciso que você se dirija ao local e procure por esse sujeito, para recuperar o que nos pertence. — Explicou o Rei Nicolas.


— Entendo a situação, meu Rei. Mas mesmo que eu me dirigisse ao local o mais rápido possível, o tal ladrão já estaria há quilômetros de distância! Eu posso tentar rastrear ele, mas isso só levaria mais tempo. — Disse Davi, preocupado.


— Compreendo isso, mas não se preocupe. O indivíduo já foi localizado. Ele está escondido em uma estrutura no meio da Floresta do Destino. Os espiões garantiram que o sujeito não conseguiu sair de lá ainda, pois foi ferido durante o combate. Será uma presa fácil para você. — Garantiu o Rei.


— Compreendo. Tudo bem, irei para o local o mais rápido possível! Até breve, meu Rei! — Disse Davi, saindo rapidamente da sala real.


Ele aprontou seu cavalo e saiu da cidade.


— Deus... que o Senhor me guie e me proteja por toda essa jornada! — Murmurou Davi, cavalgando.


Chegando ao local do roubo, o herói viu o comboio destruído. Havia marcas de batalha, destroços e alguns cadáveres. Ele desceu do cavalo.


— Santo Deus! O que quer que tenha sido roubado deve ter mesmo um alto valor para justificar essa aberração... — Disse Davi, preocupado.


De repente, ele ouviu algo se mexendo na mata.


— Hm? O que é isto!? — Disse, aprontando seu arco e flecha.


O barulho continuava, mas vindo de outra direção.


— Quem está aí!? Revele-se agora! — Gritou Davi.


Algo se mexeu atrás de Davi. Um vulto tentou acertá-lo, mas o guerreiro viu a tempo, contra-atacando e jogando o adversário contra o tronco de uma árvore. O sujeito tirou um punhal da cintura, mas Davi rapidamente apontou seu arco e disparou uma flecha, acertando bem ao lado da cabeça do alvo, fincando a flecha na árvore.


— Da próxima vez que for atacar de longe, tente usar armas de longo alcance. — Disse Davi.


A poeira abaixou, revelando o inimigo: uma mulher, por volta de 19 anos, com cabelos ruivos e olhos azuis, sem porte físico avantajado, usando roupas típicas de ladrões da região.


— Olha só que azar... Dei de cara com o bendito Herói de Daywoods. — Disse ela, com um sorriso amargo.


— Vejo que sabe ao meu respeito, mas agora o que eu quero saber é: quem é você e onde está a encomenda que você roubou? — Perguntou Davi.


— Hã? Encomenda? Acho que você está falando com a pessoa errada... — Respondeu ela, com desdém.


Davi a alvejou com uma flecha no arco.


— Diga o que eu quero saber, e ninguém se machuca.


— Eu não sei se a fama subiu à sua cabeça, mas eu não sou quem você está procurando! — Respondeu ela, irritada.


— Tire seu manto. — Ordenou Davi.


— O quê?


— Mandei tirar o manto. — Repetiu ele, puxando a flecha.


A estranha então tirou seu manto de ladra, revelando uma roupa comum das vilas, embora velha e gasta.


— Pronto? Já viu o que queria ver? — Perguntou ela.


— Vire-se! — Ordenou Davi.


— O quê!? Tá querendo ver a minha bunda agora, é!? — Respondeu ela, indignada.


— Vire-se agora! — Repetiu Davi.


Ela então deu uma volta.


— Hm... não é você, não estou vendo nenhum ferimento.


— Então era isso? Eu podia jurar que o Herói de Daywoods era só mais um tarado! — Disse ela, provocando.


— Q-quê!?? De forma alguma! Que absurdo! — Respondeu Davi, embaraçado.


— De qualquer forma, eu vou terminar o que vim fazer aqui, tá? Meu bom homem. — Disse ela.


— Se veio para saquear estes destroços, fique à vontade, tenho preocupações bem maiores em pendência. — Respondeu Davi, dando as costas e começando a caminhar.


— Uiiii, e quais seriam suas pendências? — Perguntou ela, curiosa.


— E por que eu falaria para você? — Respondeu Davi, sem se virar.


— Porque talvez eu tenha informações sobre quem você procura... — Disse ela.


Davi parou.


— E por que devo acreditar em você? — Perguntou ele.


— Porque se você não andar logo, ele vai conseguir escapar! — Respondeu ela.


Davi hesitou.


— Tudo bem..., mas se estiver mentindo, não hesitarei em... — Ele foi interrompido.


— "Em atirar uma flecha em mim." Eu sei, ouço muito isso, hahaha! — Disse ela, rindo.


— Hm... — Davi resmungou.


— Mas em troca, quero um favorzinho seu! — Disse ela.


— Lá vem... — Disse Davi, resignado.


— Bom... eu não sou uma ladra, naturalmente. Sou só uma cidadã que mora numa vila aqui perto... Eu só vim saquear porque seria a única oportunidade de eu conseguir realizar meu sonho, morar em Daywoods. Falta pouco para juntar as moedas de ouro para comprar um terreno lá e construir a casa... — Explicou ela.


O guerreiro se comoveu com o sonho da garota, lembrando-se de quando era mais novo e seu sonho era ter seu próprio lar. Não vendo más intenções, ele consentiu.


— Tudo bem. Eu ajudo você a conseguir a sua casa. — Disse Davi.


— Ebaaaa! — Exclamou ela, animada.


— Agora vamos logo! Preciso encontrá-lo antes do anoitecer. — Disse Davi, apressado.


— Vamos! Vejamos... — Ela começou a cheirar o ar, como se tivesse algum tipo de faro. — Ele não está longe, vamos! — Disse ela, correndo em direção ao nordeste.


— Ela consegue localizar as pessoas pelo cheiro? — Pensou Davi.


— Ei! Espera aí! — Gritou ele, correndo atrás da garota.


Davi saiu tão depressa que acabou deixando seu cavalo para trás...


Os dois então correram à procura do tal indivíduo, mas mal sabiam eles o que lhes aguardava...


Ao cair da noite...


— Chegamos, ele deve estar lá dentro. — Disse a estranha.


— Então é essa a estrutura... Ok, eu vou entrar, você espera aqui fora. — Disse Davi, observando o lugar.


— Eu discutiria com você, como nos clichês que todos estão acostumados, mas concordo, estarei melhor aqui fora mesmo. — Respondeu ela.


— Haha, certo...


— Kaori... — Disse a estranha, revelando seu nome.


— Hã? — Davi a olhou surpreso.


— Meu nome é Kaori...


— Ok, Kaori... Eu volto logo.


— Vai com Deus... cuidado. — Disse Kaori, preocupada.


O Herói de Daywoods adentrou no lugar. Parecia uma espécie de celeiro abandonado, com ratos e outros bichos circulando, mas nem sinal do ladrão.


— Tsc! Será que ela me enganou?


— Acredito que não... — Uma voz ecoou.


Davi foi surpreendido por várias facas vindo em sua direção de diferentes lugares. Ele tentou desviar, mas ainda foi ferido superficialmente nas partes onde sua armadura não conseguia proteger totalmente.


— Boa tentativa, mas você não vai conseguir nada comigo sendo covarde desse jeito! — Gritou Davi.


— É mesmo? — A voz respondeu desdenhosa.


O chão começou a se despedaçar, revelando espinhos de madeira pontiagudos no fundo do buraco. Davi puxou uma flecha da aljava e atirou no teto, fixando-a. Nela estava acoplada uma corda, que ele usou para se pendurar e escapar da armadilha.


— Então é isso!? Vai ficar nesses seus joguinhos!? Posso fazer isso a noite inteira! — Desafiou Davi.


— Não, não poderá mais. — Disse a voz.


À esquerda de Davi, bolas de espinhos espectrais, criadas por magia negra, foram disparadas.


— Só faltava essa agora!! — Gritou Davi.


O guerreiro soltou a corda, desviando das bolas, mas caindo em direção aos espetos. Rapidamente, ele jogou uma pequena bola de energia para baixo, que ao eclodir, lançou-o para cima novamente, conseguindo aterrissar em segurança no térreo do celeiro.


— É tudo que você tem!? — Provocou Davi.


Não houve resposta... apenas o fino soar de pavio sendo queimado.


— Esse cheiro... Espera aí! — Percebeu Davi.


O celeiro explodiu.


Do lado de fora, o misterioso inimigo ria, comemorando sua vitória sobre o guerreiro de Daywoods. Mas o que ele não esperava era que Davi estava vivo.


Saindo dos escombros, o herói estava ferido. Sua armadura, apesar de ser muito resistente, estava bem avariada.


— Ér... acho que... dessa vez você me... surpreendeu! — Disse Davi ao se levantar.


— Olha só pra você... nem consegue ao menos ficar de pé direito. — Respondeu a voz.


— Eu posso estar ferido, mas ainda tenho forças para acabar com você! — Disse Davi, determinado.


O vilão sorriu.


— É melhor que você saiba quem vai te matar, assim pode contar para todos os seus amigos no inferno!


— O que você disse!?


O sujeito tirou seu manto, revelando um homem alto e forte, com cabelos curtos e roxos, marcas de batalha pelo corpo, roupa suja e amarrotada, e a camisa de botões aberta. Ele tinha um ferimento na coxa esquerda, com sangramento estancado por um torniquete caseiro.


— Meu nome é Aizen. Sou um dos generais do Reino de NightWoods. É um imenso prazer conhecê-lo formalmente.


— Eu deveria dizer... desprazer, isso sim! — Respondeu Davi.


— Olha só... mesmo na hora da morte, você mantém essa sua língua afiada... — Comentou Aizen.


— Eu quero saber... onde está o pacote que você roubou!?


— Ah, está falando disso aqui? — Aizen puxou um pergaminho.


— Isso é um pergaminho de Magia Negra que foi roubado de nós! Estou apenas pegando de volta...


— Mentiroso! Este pergaminho estava sendo transportado para ser guardado em segurança aqui no Reino da Luz! Pergaminhos poderosos como este jamais devem ficar nas mãos de gente maldosa como vocês!


— Bem... isso não importa agora... agora você irá mor... — Aizen foi interrompido.


Ele foi golpeado nas costas por um punhal e chutado na coxa ferida, caindo no chão de dor.


— Mas que porra... é essa!??? Aghh!


— Eu estava me perguntando quando você ia aparecer... — Davi sorriu.


— Sabe como é, né? Esperar o momento certo para atacar. — Kaori sorriu.


— Mal... ditos! Malditos, malditos, malditos!! Agh! — Gritou Aizen.


— Entregue o pergaminho, você não precisa morrer. — Disse Davi ao se aproximar do inimigo.


— Entregar? Não, não... eu tenho uma ideia bem melhor! — Aizen abriu o pergaminho.


— O quê!? Não!! — Gritou Davi, tentando correr para impedi-lo.


— Conjuração das Trevas - Yami no Shinka!


Um feixe de luz intenso saiu das letras do pergaminho, liberando ondas de energia malignas que envolveram todo o corpo de Aizen.


— Eu não tinha permissão para fazer isso... talvez o Rei me mate, mas eu não tive escolha!


— Mas o que é isso??? Davi??? — Gritou Kaori.


— Grr... meus olhos... não consigo olhar pra ele! — Disse Davi.


— Contemplem o poder do Reino das Trevas! Ahahahaha!!


Depois da grande explosão de feixes de luz, Davi e Kaori podiam finalmente ver o que tinha acontecido. À sua frente estava Aizen, mas totalmente transformado. Sua pele agora tinha uma coloração cinza, seus olhos eram amarelados com pupilas vermelhas, seu cabelo, unhas e dentes aumentaram de tamanho. Ele possuía espetos saindo de partes do seu corpo, como ombros e cotovelos. O inimigo que antes já parecia ameaçador, agora se revelava um verdadeiro monstro.


— Finalmente... agora eu sou oficialmente... um monstro! Ihahaha!


— Davi... você acha que damos conta? — Perguntou Kaori.


— Eu vou criar uma distração... você precisa ser ágil o suficiente pra pegar o pergaminho ali no chão e ir embora para Daywoods. Eu consigo segurá-lo. Quando chegar lá, diga ao Rei que Davi te mandou, e que está solicitando reforços na Floresta do Destino. — Disse Davi, formulando um plano.


— O quê? Nem pensar! Eu não vou deixar você sozinho com esse bicho! — Protestou Kaori.


— Agradeço sua atitude, mas nós não temos tempo para discutir isso! Você vai fazer o que eu disse... quando eu der o sinal...


— O que estão cochichando!? Estão com tanto medo que não conseguem falar alto? Não precisam se preocupar, porque em instantes vocês não vão conseguir nem falar! Eu vou quebrar a mandíbula de vocês, vou ver vocês morrendo em dor e agonia! Hahahaha! — Interrompeu Aizen.


— Tsc... — Kaori estava impaciente.


— Pronta...? — Perguntou Davi.


— Chega de falar, agora eu vou botar pra moer! — Disse Aizen, avançando em direção a eles.


— Agora!!! — Gritou Davi.


— Táaa! — Respondeu Kaori.


— Conjuração do Trovão - Mahi sa Seru!


Kaori avançou ao encontro de Aizen, com pequenos raios amarelos atrás dela. Aizen tentou golpeá-la com um soco, mas um dos raios atingiu sua mão, deixando-o paralisado.


— O quê!? Minha mão... minha mão não quer se mexer! — Gritou Aizen.


Kaori conseguiu pegar o pergaminho e correu em direção a Daywoods.


— Você não vai escapar!!! — Gritou Aizen.


O monstro carregou uma espécie de chamas negras no outro braço, mas os restantes dos raios lançados por Davi o atingiram, paralisando-o completamente.


— Grrr! O que está acontecendo!???


— Parece que você não é tão esperto quanto pensa. — Disse Davi.


— Grr! Você... liberte-me agora mesmo!


— Não se preocupe, você será libertado em pouco tempo, assim que minha cavalaria chegar.


— Maldito! Grr... que magia é essa!?


— Magia básica do Trovão. Enquanto eu tiver fôlego, você não vai conseguir se mexer.


O inimigo abriu bem os olhos... e sorriu.


— Grrrr... — Davi foi acertado no peito por um dos espetos que estavam espalhados pelo corpo de Aizen. Sua armadura estava muito avariada, não conseguiu impedir que a ponta do espeto perfurasse seu peito. O monstro foi liberto da paralisação de Davi.


— Hahahahaha! Você achou mesmo que ia conseguir me derrotar assim!? Meu diabo, você é muito otário! — zombou Aizen, seu riso ecoando pelas paredes do celeiro.


Davi tentou desesperadamente remover o espeto, mas a ferida era profunda, deixando-o momentaneamente sem forças.


Aizen se aproximou lentamente, encarando Davi face a face.


— Esperava mais... — provocou Aizen, antes de desferir um golpe na barriga do herói, fazendo-o expelir sangue pela boca. Uma sequência de golpes seguiu-se, quebrando os ossos de Davi, cujo corpo foi lançado violentamente para trás por uma magia repulsiva, chocando-se contra uma árvore.


No chão, Davi tentou resistir, mas suas forças o abandonavam. Sua respiração tornou-se pesada e árdua, seus ossos pareciam fragmentados. O destino parecia inevitável, a sombra da morte pairando sobre ele. No entanto, sua fé permanecia inabalável.


— Patético... — escarneceu Aizen, observando Davi em sua agonia.


— Grr! É isso mesmo! A garota! Não posso deixá-la entregar o pergaminho! — Aizen exclamou, virando-se rapidamente para partir.


— Eu preciso ir... Vou deixar você para a sobremesa! Veja se não morre antes! — disse Aizen com um sorriso sádico, enquanto se afastava.


Davi, mesmo à beira da morte, murmurou uma prece silenciosa.


— Meu Deus... Eu sei que o Senhor ainda tem muitos planos para mim... Envie um milagre... Não me deixe partir agora... Eu devo cumprir meu dever... Deixar meu legado...


Em um derradeiro momento de esperança, uma pequena bolsa presa à cintura de Davi se abriu, revelando algo que poderia ser a chave para sua salvação ou sua última esperança diante da escuridão iminente.


- Continua no Volume 2 -